Brasilia DF 07 11 2018-O presidente eleito, Jair Bolsonaro, conversa com jornalistas após visita ao Comando da Aeronáutica,em Brasília foto Jose Cruz /Agencia Brasil
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Há um dilema ainda não proposto para Bolsonaro, mas que, creio, chegará em algum momento. Em verdade, o dilema está latente, contudo, não reconhecido pelo atual presidente. Em termos gerais, há a seguinte escolha: 1) dar um basta nas pautas e ações ideológicas e, com isso, irritar os eleitores bolsonaristas e 2) focar na administração do Estado, de forma pragmática, democrática e republicana e, com isso, ganhar liderança e capital político, que foi rapidamente dilapidado nestes meses iniciais de governo. Vejamos.

A conjugação de pautas mais ideológicas, como, por exemplo, mudança de embaixada de Tel Aviv para Jerusalém; promoção de facilidades para posse e porte de armas; corte de verbas para as universidades; tentativa de sucatear cursos da área de Humanidades, como Filosofia e Ciências Sociais; retrocessos no Ministério do Meio Ambiente, entre muitas outras. Tais pautas denotam que não há uma racionalidade que implique na correta projeção das consequências daquilo que é dito ou arquitetado. No limite, há mais paixão, ideologia, voluntarismo e amadorismo do que, efetivamente, uma ética da responsabilidade.

Soma-se a isso os dizeres de campanha que teríamos um governo liberal na economia e conservador nos costumes. Até o momento é visível as pautas conservadoras e pouco de liberalismo, visto que as intervenções de Bolsonaro na política de preços da Petrobras e falas sobre os juros do Banco do Brasil trouxeram prejuízos às instituições. Há, claro, a MP da liberdade econômica, que deve ser elogiada e aprofundada, bem como as tratativas em relação à reforma da previdência. Mas, tirante esses dois últimos bons exemplos, o governo foi, até o momento, bem mais inoperante do que proativo no que tange aos problemas reais, concretos, da sociedade brasileira. Além da guerra virtual promovida por Olavo de Carvalho e parte dos filhos do presidente contra membros do atual governo como, recentemente, o General Santos Cruz e as ofensas ao ex-comandante do Exército o General Villas Bôas.

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Tem ficado nítido para os atores políticos e para os analistas que as falas de Olavo de Carvalho ou do filho Carlos são referendadas por Bolsonaro, que não pode proferi-las pessoalmente. Abandonar essa conduta ideológica teria que se assentar numa mudança radical das ações em alguns ministérios ou, até mesmo, desligar alguns ministros desse atual governo: Damares Alves, Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Ricardo Salles, por exemplo. Estes poderiam ser substituídos por figuras de destaque em suas áreas e com capacidade técnica, intelectual e de gestão para as funções que os ministérios reclamam. Outro ponto seria limitar a importância que filhos e Olavo de Carvalho assumiram neste governo paralelo.

Se o Presidente Bolsonaro optar por essa escolha, terá o ódio dos bolsonaristas raiz, bem como de Olavo de Carvalho, mas, em contrapartida, pode ampliar sua base no Congresso Nacional e na própria sociedade. Feito isso, poderia o presidente focar em temas estratégicos: reforma da previdência, uma boa articulação política, reforma fiscal e tributária, reforma política, diminuição da violência, retomada do emprego e melhoria de nossos péssimos índices educacionais. Caso Bolsonaro conseguisse só metade, ou um terço disso, já estaria colocado como forte candidato à reeleição.

Até o momento, esse dilema sequer foi assimilado pelo Governo. As falas e ações têm privilegiado as pautas ideológicas e a guerra virtual contra os próprios aliados no governo em detrimento de uma administração estratégica de problemas reais. Até quando? 


Rodrigo Augusto Prando é Cientista Político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp/FCLAr.

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