22 de fevereiro de 2024
Destaques • atualizado em 10/02/2021 às 11:20

Pesquisadores internacionais estudam como prever epidemias da dengue, zika e febre amarela

Pesquisadores internacionais realizará uma pesquisa com o objetivo de entender o surgimento das epidemias e qual comportamento a ciência e sociedade devem ter em relação à essa temática. De acordo com um artigo de Maria Fernanda Ziegler, da Agência Fapesp, que ouviu vários pesquisadores para falar sobre esse tema, desde as primeiras informações que se teve de mortes causadas por surtos de determinadas doenças mundo afora, poucas informações concretas foram conseguidas.

Nesta publicação, a autora destaca que, por exemplo, epidemias de febre amarela estiveram associadas ao tráfico de pessoas escravizadas, a corrida do ouro e ocupação do “velho oeste” dos Estados Unidos, a revolução do Haiti e ainda a disputa geopolítica pelo canal do Panamá, apenas para citar alguns exemplos de quão era gritante a desinformação acerca deste assunto.

Séculos depois do primeiro registro da doença nas Américas, explica o artigo, uma equipe internacional de pesquisadores iniciará mais um estudo pioneiro no campo das epidemias. Com o objetivo de monitorar e desenvolver modelos de predição de ressurgências não só de epidemias de febre amarela, mas também de outros vírus transmitidos por mosquitos (arboviroses), como dengue, zika e chikungunya.

“Temos um conhecimento muito bem estabelecido sobre os ciclos dessas doenças e sobre possíveis novos surtos. No entanto, falta ainda um conhecimento sistêmico que determine quando ocorrerá uma nova epidemia. Nosso objetivo é monitorar e criar modelos preditivos para poder antecipar ações de combate e proteção da população, além de entender melhor a conjunção de fatores que levam a novos surtos”, diz Maurício Lacerda Nogueira, ele é professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e integrante do grupo de pesquisa Cretae-Neo, projto financiadopelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos EUA.

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Para dar início ao projeto, os pesquisadores publicaram um artigo na revista Emerging Topics in life Science no qual revisam os fatores que influenciam o potencial de reemergência da febre amarela.

“O desmatamento, os padrões sazonais de chuva e a população de primatas não humanos têm influência em novos surtos, mas falta ainda saber qual é o ponto crítico para que eles ocorram. Para descobrir isso, vamos desenvolver modelos preditivos a partir de pesquisa e monitoramento realizados no interior de São Paulo, Amazonas, Pantanal e no Panamá – hotspots dessas arboviroses”, diz Nogueira.

Ainda de acordo com os pesquisadores, já se sabe que por análise histórica que, no Brasil, novos surtos de febre amarela tendem a ocorrer a cada sete ou dez anos.

“Mas temos muitas arboviroses no país e isso faz com que a gente viva constantemente em epidemias”, explica a pesquisadora do projeto Livia Sacchetto.

De acordo com a pesquisadora, o projeto tem também a finalidade de entender e antecipar a ocorrência de spillover, quando há o transbordamento de um arbovírus do ciclo urbano para o silvestre e da floresta para as cidades.

As doenças, por exemplo, como dengue, zika e chikungunya são transmitidas para humanos e macacos por mosquitos Aedes aegypti infectados. No caso da febre amarela, além do A. aegypti como vetor urbano, há o ciclo silvestre, caso em que mosquitos de áreas florestais ou rurais de outro gênero (Haemagogus) são infectados pelo flavivírus, causador da doença.

Os pesquisadores explicam que mesmo com uma vacina eficaz e a ausência de registro de casos da doença por transmissão urbana no Brasil desde 1942, ainda são comuns episódios de reemergência do vírus do ciclo silvestre de febre amarela que se espalham para as cidades.

“Ainda temos muita morte em humanos e macacos por epidemias de febre amarela no Brasil e em outras localidades do continente americano e africano. Apesar da existência da vacina e dos avanços no controle da transmissão da doença, continuamos tendo casos emergentes do ciclo silvestre, pois o vírus está endêmico em parte do Brasil, com uma circulação estabelecida e persistente entre mosquitos vetores silvestres e os primatas não humanos, que são os hospedeiros primários da febre amarela”, explica Sacchetto.

Segundo os pesquisadores a dificuldade em controlar a doença dá-se quando um vírus se estabelece no ciclo de transmissão enzoótica – no caso da febre amarela, em primatas não humanos.

“É muito mais difícil fazer o controle do vírus no ciclo silvestre. Quando o ciclo enzoótico é estabelecido, o vírus se mantém no ambiente silvestre – como a febre amarela – com a possibilidade de ser transportado para as cidades por meio de um caso de infecção acidental em um humano”, diz a pesquisadora.

Sacchetto explica que a circulação do vírus nas cidades levanta a preocupação do retorno do ciclo urbano, ou seja, transmissão do vírus da febre amarela pelo Aedes aegypti.

“Por isso a importância de estudos de vigilância epidemiológica e da manutenção de uma boa cobertura vacinal a fim de barrar epidemias”, diz.

O fim da preservação do meio ambiente, com casas e outras construções chegando a esses locais, antes preservados, ajuda a piorar a situação.

“Temos alguns casos ativos de febre amarela no Sul do país, nos estados do Paraná e Santa Catarina, tanto em primatas não humanos quanto em humanos. Algo que não costumava acontecer em décadas anteriores”, afirma Nogueira.

No continente africano – onde a febre amarela surgiu e de onde veio transportada séculos depois para as Américas – a doença ocorre em maior número de casos na África Subsaariana, constituindo um grande problema de saúde pública, com surtos periódicos e imprevisíveis de febre amarela urbana.

Já nas Américas, conforme os pesquisadores destacam, a abrangência da febre amarela tem sido relatada do norte do Panamá até a região nordeste da Argentina. Embora nos últimos anos a maioria dos casos tenha sido relatada na região da Bacia Amazônica – durante a estação chuvosa e tendo os mosquitos Haemagogus como principal vetor – tem se registrado um aumento de casos reportados de infecção pelo vírus silvestre com surtos no Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil.

(Com Agência Fapesp)

 


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