Por Iuri Rincon, jornalista – (Texto originalmente publicado no perfil do jornalista no Facebook


Morreu hoje (3/02/18) no final da tarde Eliezer Penna. Falando assim, ninguém sabe direito quem ele foi. Aos 93 anos, estava afastado da agitadíssima vida que levou.
Eliezer foi um dos jornalistas da geração de ouro dos anos 50 que tirou a imprensa goiana do século XIX. Ler jornal naquela época exigia um exercício de paciência. Os textos eram, para dizer uma palavra usada na época, sorumbáticos, quase herméticos e laudatórios. Elogiosos para os amigos, cacete nos desafetos.

Eliezer implantou em O Popular, sob a direção paternal e complacente de Jaime Câmara, um jornalismo de palavras simples, aquele que todo mundo entendia. Logo nas primeiras linhas o leitor ficava sabendo quem, como, onde e quando. Nada de enrolação. Aproximou a redação das causas populares sem perder a elegância do texto. Foi professor de todo mundo que foi alguém na imprensa goiano nos últimos 50 anos. Era amado e reconhecido em vida como um mestre.

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Chegou a Goiás vindo de São Paulo, estado onde nasceu em 8 de agosto de 1925, na cidade de Taquirituba. Na juventude envolveu-se com o Partido Comunista e chegou a Goiânia em 1949 como jornalista da “Folha da Manhã” (em 2018, “Folha de São Paulo”), desiludido com a vida na metrópole paulista e com os desafetos que fizera lá. Encantou-se com a nova capital e com Araci Taveira, sua futura esposa, que conheceu em uma festa no Jóquei Clube. Foi amor à primeira vista. Tiveram quatro filhos.

Em um Dia dos Mortos de 1956 ele fez sua mais viva e melhor reportagem. Foi o primeiro a entrevistar Juscelino Kubitschek no local onde seria construída a nova capital do Brasil. Eliezer não se intimidada entre os poderosos. Nasceu destemido, um mundo a conquistar pela frente. Manso, de gestos curtos e um sorriso no canto dos lábios, mirava o interlocutor meio de lado com olhos espertos e irônicos.

Com pouco tempo em Goiânia já era querido e admirado. Foi secretário do Interior e Justiça do governador José Feliciano no final dos anos 50 e chefe do Gabinete Civil do governador Mauro Borges no início dos anos 60. Com menos de 10 anos por aqui, já tinha conquistado tudo mas iria além. Chegou a coordenador da campanha para senador do ex-presidente Juscelino Kubitschek e deputado estadual.

Sua habilidade e inteligência o levaram ainda a secretário de Imprensa do governador Otávio Lage e assessor parlamentar do governador Leonino Caiado. Aquele garoto que começou no Partido Comunista era tão bom de serviço que servia também ao regime militar. Não, Eliezer não mudara de lado. Ele simplesmente estava acima dos conceitos de esquerda e direita.

Há alguns anos Eliezer sentia o peso da idade. Com Alzheimer, não sai de casa e muita vezes não reconhecia as pessoas. Não tem problema. Você pode até não saber quem foi Eliezer Penna. Mas a história não se esquecerá dele.

 

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