Luís Inácio Lula da Silva Foto Ricardo Stuckert)
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As perguntas feitas ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, na prisão, em Curitiba, foram levadas em visita recente de Frei Betto. Respondidas, as perguntas foram publicadas pelo jornal cubano Granma. “Uma prisão política”, disse o entrevistado.

Veja a íntegra da entrevista:


Granma – Como candidato à presidência do Brasil com o maior apoio popular, onde todas as pesquisas o indicam como favorito, como você classifica esta perseguição e prisão a que foi submetido?

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Lula – É um processo político, uma prisão política. O processo contra mim não aponta um crime, nem há provas. Eles tiveram que desrespeitar a Constituição para me prender. O que está se tornando cada vez mais transparente para a sociedade brasileira e para o mundo é que eles querem me tirar das eleições de 2018. O golpe, em 2016, com a retirada de uma presidenta eleita, indica que eles não admitem que as pessoas votem em quem quiserem votar.

Granma – A prisão tem sido, para muitos líderes presos pelo simples fato de lutar pelo povo, um lugar de reflexão e organização de ideias para continuar a luta. No seu caso, como você enfrenta esses primeiros dias, já que não consegue entrar em contato com as pessoas?

Lula – Estou lendo e pensando muito, é um momento de muita reflexão sobre o Brasil e principalmente sobre que tem acontecido nos últimos tempos. Estou em paz com a minha consciência e duvido que todos os que mentiram contra mim durmam com a tranquilidade com que durmo. Claro que eu gostaria de ter liberdade e estar fazendo o que fiz durante toda a minha vida: diálogo com as pessoas. Mas estou ciente de que a injustiça que está sendo cometida contra mim também é uma injustiça contra o povo brasileiro.

Granma – Quão importante é saber que em todos os estados brasileiros há milhares de compatriotas a favor de sua libertação?

Lula – A relação que tenho construído ao longo de décadas com o povo brasileiro, com os movimentos sociais, em uma relação de muita confiança é algo que eu aprecio, porque em toda a minha trajetória política sempre insisti em jamais trair essa confiança. E eu não trairia essa confiança por nenhum dinheiro, por um apartamento, por nada. Foi assim antes de ser presidente, durante a presidência e depois dela. Então, para mim, essa solidariedade é algo que me empolga e me encoraja a permanecer firme.

Granma – Como definir o conceito de democracia imposto pelas oligarquias com o objetivo de descartar os líderes de esquerda a ocuparem o poder?

Lula – A América Latina viveu nas últimas décadas seu momento mais forte de democracia e conquistas sociais. Mas recentemente, as elites da região estão tentando impor um modelo onde o jogo democrático só é válido quando eles ganham, o que, claro, não é democracia. Então, é uma tentativa de democracia sem um povo. Quando não sai do jeito que eles querem, eles mudam as regras do jogo para beneficiar a visão de uma pequena minoria. Isso é muito sério. E estamos vendo isso, não só na América Latina, mas em todo o mundo, um aumento da intolerância e perseguição política. Isso aconteceu no Brasil, na Argentina, no Equador e em outros países.

Granma – Que mensagem você envia para todos aqueles que, no Brasil e no mundo, são solidários com você e exigem sua libertação imediata?

Lula – Eu agradeço toda a solidariedade. É necessário estar em solidariedade com o povo brasileiro. O Desemprego aumenta, mais de um milhão de famílias voltaram a cozinhar com lenha por causa do aumento do preço do gás de cozinha, milhões que deixaram a miséria não estão mais comendo, e até mesmo a classe média perdeu emprego e renda. O Brasil estava em uma trajetória de décadas de progresso democrático, de participação política e junto com os avanços sociais, que se aceleraram com os governos do PT, que venceram quatro eleições consecutivas. Eles não atacaram apenas o PT. Eles não me prenderam apenas para prejudicar Lula. Eles o fizeram contra um modelo de desenvolvimento nacional e inclusão social. O golpe foi feito para eliminar os direitos dos trabalhadores e aposentados, conquistados nos últimos 60 anos. E as pessoas estão percebendo isso. E vamos precisar de muita organização para voltar a ter um governo popular, com soberania, inclusão social e desenvolvimento econômico no Brasil ”. (Texto em português, publicado pelo site da Revista Fórum )

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